O MÍTICO E O MÍSTICO EM GUIMARÃES ROSA E

WILLIAM FAULKNER: ILUSÕES FATAIS

 

Maria Cristina Pimentel Campos - UFV

 

 

William Faulkner e Guimarães Rosa retratam, em suas narrativas, culturas regionais refletidas no relacionamento entre o comportamento humano e a fatalidade. Apresentam o mítico como forma do homem expressar-se frente às angustias e ansiedades inerentes à existência do ser. O mítico, enquanto expressão humana, representa o liame entre a crença e o racional/empírico. Guimarães Rosa, em “A Menina de Lá”, permite que o místico assuma características múltiplas do sagrado, do religioso, do numinoso. Faulkner, em “A Rose for Emily”, encobre/revela o mítico, ao objetivá-lo através da cultura sulista, arraigada em princípios de respeito à tradição. Guimarães Rosa e Faulkner retratam a misteriosa ausência presença do ser na natureza arbitrária do sentido. Ambos fazem de suas narrativas instrumentos de expressão temática, cultural e psicológica; manifestações primitivas do homem responder à realidade. O universo do mito, segundo Leitch (138), fundamenta-se na origem da cultura e da consciência humana. Para o crítico literário, mito e literatura funcionam como narrativas essenciais que, além de transmitirem conhecimento e sabedoria, enfatizam as crenças sociais e espirituais.

Emily, em “A Rose for Emily”, simboliza a aristocracia do Sul dos Estados Unidos sendo que sua casa representa a própria sociedade tradicional. Casa e Emily sinalizam a decadência de uma tradição arraigada no passado, opositora à mudanças, inovações, às rupturas sociais advindas com o passar do tempo, com o progresso sócio-econômico. Ambas se fundem em um mesmo processo de deterioração drasticamente representado, por Faulkner, pela destruição física do corpo de Holmer, causado pela ingestão de arsênio que Emily lhe administra. Entre os limites da preservação da tradição e da ruptura, o mito sulista se constrói na destruição física de seus protagonistas.

Embora preservado enquanto mito, tornando-se intocável, incompreendido, inexplicável, admirado e, até mesmo respeitado, “A Rose for Emily” representa a decadência de uma época que se faz história, registrando, assim, a dificuldade de aceitação do novo, a resistência à mudanças, o desejo de preservar o velho, o conhecido, a tradição.

Faulkner, no perpassar da historicidade e do mito, apresenta, na caracterização de Emily, duas forças antagônicas relativas ao ser: a determinação e a fragilidade humanas. Emily, com seu comportamento doentio, demonstra que o símbolo da aristocracia, o monumento da tradição, não passa de uma alma sofrida devido à repressão paterna que a isolara, ainda jovem, do convívio social, distanciando-a da realidade, reprimindo-lhe os desejos naturais de menina-mulher.

Psicopata e escrava de sua própria condição familiar e social, Emily enclausura-se em sua mansão, o único objeto físico remanescente de outro tempo a permanecer naquele ambiente em transformação, sobressaindo-se como contraste explícito entre o presente e o passado. Torna-se o mito que as novas gerações admiram com um olhar de fora, estrangeiro àquilo que já não é mais, que suscita, paradoxalmente, um misto de curiosidade e respeito:

 

When Miss Emily Grierson died, our whole town went to her funeral: the men through a sort of respectful affection for a fallen monument, the women mostly out of curiosity to see the inside of her house, which no one save an old manservant _ a combined gardener and cook _ had seen in at least ten years.

Faulkner, 221

 

O silêncio de Emily revela uma voz solitária e sufocada. Na idealização do velho Sul, o mito se faz presença e se constrói no olhar das gerações posteriores, que expressam uma voz solidária ao passado, uma certa nostalgia. Presente e passado se contrapõem na materialização da modernidade, mas há o sentimento que fica na ideologia construída pelos vários olhares, pelas várias vozes que reconstroem e reafirmam o mito:

 

Alive, Miss Emily had been a tradition, a duty, and a care; a sort of hereditary obligation upon the town, dating from that day in 1894 when Colonel Sartoris, the mayor _ he who fathered the edict that no Negro woman should appear on the streets without an apron _ remitted her taxes, the dispensation dating from the death of her father on into perpetuity.

Faulkner, 221

 

Segundo Rodrigues, “as condições ideológicas do contexto do Velho Sul não se dão no interior do protagonista, mas sim exteriormente, no confronto das vozes sobre o protagonista (incluindo a voz do leitor)” (1996: 235). Nesse sentido, os diversos olhares e as diferentes vozes expressam, para Jung, não o inconsciente pessoal do autor, mas situam-se na esfera do inconsciente mitológico cujas imagens constituem a herança comum da humanidade (Leitch, 1988:120).

O comportamento bizarro de Emily simboliza a necessidade do homem de ludibriar sua própria condição humana. Fragilizada pelas situações que a vida lhe apresentou, Emily se transforma no humano grotesco, ainda que mito, deformado e dilapidado pela impossibilidade de harmonização entre o inconsciente coletivo e individual. O que não pôde ter em vida, Emily retém com a morte. Para ela, a vida representa o impossível, sendo que a morte se transforma no palpável, no possível. A necessidade humana de possuir só se concretiza para Emily com a manipulação do tempo que, ironicamente, ela o faz com a morte. Desafia a sociedade e a si própria, negando-as e renegando-se a coexistir num universo que não é seu. A dinâmica da vida lhe é proibida por forças externas e internas. Assim, opta pelo distanciamento, e como reclusa, torna-se símbolo da impropriedade e inadequação do ser social. Mito vivo da sociedade sulista, Miss Emily Grierson mata e morre na narrativa de Faulkner. Simboliza a união entre a imaginação humana e o mito, irrestrita ao tempo, local e cultura. Demonstra a habilidade do autor em representar um aspecto plausível sobre a condição humana através do gótico. Segundo Brooks and Warren, os aspectos admiráveis e horrorosos do comportamento de Miss Emily baseiam-se na sua insistência em ter o mundo a sua própria maneira. Esse orgulho e independência de espírito transformam o indivíduo em uma espécie de monstro, ao mesmo tempo que, essa recusa de aceitar os valores reinantes não deixam de indicar uma dignidade e coragem de caráter (1979:230).

Guimarães Rosa, em “A Menina de Lá”, desvela, em estilo denso, com linguagem condensada, entrecortada e elíptica, carregada de multissignificância, idéias relacionadas ao “sobre-humano.” O sobrenatural é introduzido através de linguagem concisa, pelo semi-dito, pelo não-dito, pelo silêncio que sugere o interdito, em que a linguagem se situa nos limites do real e do imaginário, entre a crença e o empírico, nos domínios do inexplicável, do mito.

“A Menina de Lá”, como o título sugere, nunca aqui pertenceu. Pertence a uma outra esfera, envolta no mistério de “lá”, de outra vida, da além morte. Guimarães Rosa trata a morte como algo de lá, que permeia, contudo, a vida com sua constante presença, sob o olhar temeroso, crente, tímido, passivo, visionário e místico. Incompreensível, a morte se infiltra nas vidas das personagens, impregnando-as com a não-compreensão do sentido que extrapola o signo expresso, situando-o no limiar do mundo visível e invisível que se torna indivisível na mente humana em sua necessidade de compreender e aceitar a morte. Ironicamente, a morte, a única certeza da vida, torna-se mito sob a ótica mística de Nhinhinha, personagem principal desse conto. Guimarães Rosa brinca com a morte, não deixando de atribuir-lhe a seriedade inerente ao âmago do ser que se traduz na ansiedade da existência humana. Segundo Duarte, a ironia literária, além de referir-se à denúncia dos jogos de enganos e da desmistificação da sedução, fundamenta-se na “consciência de que o que caracteriza o homem é o vazio e a certeza inexorável da morte” (80).

O início do texto sugere uma certa instabilidade do ser humano sobre sua existência: “A casa ficava para trás da Serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus.” (Guimarães Rosa, 401). Adicionando-se à idéia da denominação do local como “Temor-de-Deus”, a mãe de Nhinhinha “nunca tirava o terço da mão”, sugerindo sua necessidade de agarrar-se à oração como maneira de amenizar a ironia da vida e da morte, que se traduz no temor dos homens.

A descrição da pequenina Maria, “Nhinhinha dita”, caracteriza o grotesco, que segundo Sherwood Anderson chega até a ser belo: “nascera já muito miúda, cabeçudota e com olhos enormes” (Guimarães Rosa, 401). A linguagem fragmentada do autor expressa a estranheza do comportamento grotesco da criança:

 

Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se pusesse, pouco se mexia. – “Ninguém entende muita coisa que ela fala...”– dizia o Pai, com certo espanto. Menos pela estranhes das palavras, pois nem raro ela perguntava, por exemplo: – Ele xurugou?”– e, vai ver, nem e o que, jamais se saberia. Mas pelo esquisito do juízo ou enfeitado sentido. Com riso imprevisto: – “Tatu não vê a lua...”ela falasse. (Guimarães Rosa, 401)

 

As palavras acima prefiguram os acontecimentos da narrativa em relação às premonições ou visões que Nhinhinha faz. Imprevisível no seu dizer, não-dizer, a menina simbolicamente prediz o “temor dos homens”. Guimarães Rosa desmistifica, assim, a morte, ao transformá-la em algo trivial, simples, no olhar inocente de Nhinhinha, criança com menos de quatro anos de idade. Em suas palavras pouco compreendidas pelos adultos, Nhinhinha recusa-se a interagir com o mundo de gente-grande, murmurando: “Deixa...Deixa...”_ suabilíssima, inábil como uma flor.” Chama a mãe de “Menina Grande”e o pai de “Menino Pidão” (401). Observa-se que a criança capta um sentido da vida que, apesar de parecer estranho aos adultos, indica sua percepção sutil da fragilidade humana. O símile sugere, de forma desconstrutiva, a habilidade, a ternura e sensibilidade com que a menina apreende a vida e a morte, fundindo-as, de forma natural, nas características da existência humana.

Ao lado da crença dogmática da mãe, representada pelo apego exagerado ao terço, há a sua crença no invisível, no sobrenatural, no poder da filha de fazer milagres. Como resultado dessa fé mística, a mãe se cura ao se encontrar doente: “Mas.veio, vagarosa, abraçou a Mãe e a beijou, quentinha. A Mãe que a olhava com estarrecida fé, sarou-se então, num minuto” (Guimarães Rosa, 403). Posteriormente, quando Nhinhinha morre e a Tiantônia revela aos familiares que a menina havia lhe falado “despropositado desatino” (403), no dia do “milagre” do “arco-íris, da chuva, do passarinho”, que “queria um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes brilhantes...”, o pai se rebela com a idéia, enquanto a mãe quer que se cumpra o desejo da criança. Todavia, o misticismo da mãe predomina ao dizer que nada seria necessário fazer para que Nhinhinha tivesse seu caixãozinho cor-de-rosa com enfeites verdes brilhantes:

 

A Mãe queria, ela começou a discutir com o Pai. Mas, no mais choro, se serenou _ o sorriso tão bom, tão grande _ suspensão num pensamento que não era preciso encomendar, nem explicar, pois havia de sair bem assim, do jeito, cor-de-rosa com verdes funebrilhos, porque era, tinha de ser, _ pelo milagre, o de sua filhinha em glória, Santa Nhinhinha. (Guimarães Rosa, 404).

 

Guimarães Rosa, no último parágrafo, opta pela indeterminação textual. Situa a morte nas confluências do real e do imaginário, do dogmático e do místico, quando a união dos dois níveis caracteriza a cultura de um povo, fazendo-se necessária para o entendimento e aceitação do não-compreendido, do não-explicável, porém, inevitável; do interdito pela consciência humana mas inter-dito na natureza do mito.

Finalmente, o mítico e o místico em Guimarães Rosa e William Faulkner remetem a ilusões fatais. Ambos os autores retratam a necessidade do homem de maquiar a realidade da vida/morte, quer seja transformando-as em mito ou misticismo, mas apoderando-se delas e dominando-as através da natureza arbitrária do sentido.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ANDERSON, Sherwood. Winesburg, Ohio. New York: Viking Press, 1975.

BROOKS, Cleanth; WARREN, Robert Penn. Understanding Fiction. New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1979.

DUARTE, Lélia Parreira, Estudo da Ironia: um Auxiliar Teórico de Literatura Comparada.

ANAIS do V ENCONTRO NACIONAL DA ANPOLL (Associação Naconal de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística. Porto Alegre, 1991.

FAULKNER, William. “A Rose for Emily” IN.: Understanding Fiction. New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1979.

GUIMARÃES ROSA, João. “A Menina de Lá”. IN.: Guimarães Rosa: Ficção Completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.

JUNG, Carl. IN.: LEITCH, Vincent B. American Literary Criticism from the Thirties to the Eighties. New York: Columbia University Press, 1988.

LEITCH, Vincent B.. .American Literary Criticism from the Thirties to the Eighties. New York: Columbia University Press, 1988.

RODRIGUES, Sara V. Alguns Aspectos do Tema da decadência em Absalão, Absalão! E Yaka. IN.: ANAIS do V CONGRESSO DA ABRALIC. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996.